Um homem com uma dor caminha torto
Equilibrado pelo vento
e pela certeza de que cair fica só no quase, as pernas bambas caminham entorpecidas e autônomas
Mas o que faz desse homem torto, é o peso que carrega no peito, inflamado e pulsante, que tapa a respiração e dá ânsias de angustia, a vida querendo ser vomitada, ou melhor, a vida não conseguindo ser vomitada, impedida pela insistência dessa dor, que inclina o homem pra frente, embriagado de dor, ele respira o cheiro das folhas úmidas, para aumentar mais ainda sua dor, com a recordação de outras tardes perfumadas, quando a dor não era nem especulada, pára no poste apagado, que lhe oferece friamente um breve encosto e muita poeira, mas o homem com a dor não se importa com a poeira, nem com o suor, nem com seu hálito de boca fechada, toma força olha pro relógio sem memorizar a hora e lembra de andar, pra dor se atenuar, ele pisa nas folhas secas, que estalam de compaixão, compaixão de já terem sido rígidas e vibrantes, como esse torto homem já foi um dia, mas ele não se dá conta disso, só tem memoria pras coisas tristes e só consegue alimentar sua dor, que se exibe cada vez mais torta para o mundo dos retos, que zombam, acreditam que nunca serão atingidos pela dor, mas cuidado eretos, a dor gosta de entortar as pessoas, tome por exemplo a própria paisagem, onde volta e meia vê-se um homem torto, de cabeça baixa, ou ainda os galhos de arvores, que um dia ostentaram o topo, sentiram os ventos virgens, mas hoje so fazem sombra, se se misturam a outros galhos, na ardua tarefa de segurar folhas, úmidas e cintilantes.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

3 comentários:
a vida querendo ser vivida...
Postar um comentário