quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Sunset

Desligar o celular e correr a praia do Leme todinha até o fim de Copacabana, de braços abertos, contra o vento, no fim da tarde, na beirinha da areia rente ao mar, sentindo o sal da água penetrar na pele, sentir cada grão de areia molhada nas saliências dos dedos dos pés, sentir a própria areia molhada enquanto textura áspera e refrescante, correr por alguns segundos de olhos fechados e sentir o decolar do corpo, numa alegria exorbitante, os fios de cabelos querendo autonomia, prestes a se libertarem do couro cabeludo, sentir as pantorrilhas queimarem de tanta exaustão, se extasiando em ardência, os lábios já secos, rachados, gargantas opacas, amplas de sequidão, e por fim avistar-te, pular na tua canga, pegar-te por trás de surpresa, rolar na areia macia e cobrir-te de abraços, num sorriso imensurável, englobar cada aresta tua, até que te tornes círculo, e eu, contorno.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Fragmentos de uma noite de seria.

_ "...era descansar debaixo de uma figueira, apoiado em suas raízes, com gramado verdinho, restos de galhos e lutar somente com formigas que defendem território, e tocar devagarinho no teu pescoço, pra guardar teu perfume na ponta dos meus dedos, enquanto dormes segurando frouxo um Andersen, no teu maispurosonho do reino dos mares... numa manhã dessas de sábado, que eu perco enfrentando os velhos fantasmas, fantasmas que zombam de mim depois de mais uma noite de sexta-feira derrotada..."

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Córrego

tem dias que tudo flui,
até acorde errante fica harmonizado
são esses dias que eu anoto no calendário.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Soul

Anotei no guardanapo mesmo, escrevi com esse resto de caneta, na pressa, na vontade de fugir, de sair correndo no meio da rua parar no asfalto e gritar até que meu corpo comece a desmanchar e eu vire ar, tempestade.

Olha, eu quero que você fique aí parado me esperando, vou virar o vento que vai penetrar nas tuas matas virgens, assoprar teu nevoeiro e balançar tuas copas.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Farda, etila and reality

Às vezes eu queria conversar com alguém sobre mim..

Queria poder dizer que esses dias deixei que várias coisas passassem na minha frente, mas assim, eu sempre deixo passar mesmo, nunca tenho pressa, fico só observando mesmo, acho que a indolência tomou conta de mim, tenho a sensação que ainda vou congelar no tempo.

Queria deixar esse ar de mistério, mas já que comentei o assunto, serei mais objetivo, mas não comente com ninguém hein.

Nunca deixei transparecer nada sobre mim aqui, prefiro ser assim, hermético, com essas histórias meramente ilustrativas, inventadas, quer dizer, algumas com uma dose de realidade (um pouco maquiada), algumas totalmente reais, algumas sem ordem cronológicas. Deixo o mistério no ar... a minha realidade simultânea eu prefiro enterrar no jardim, adubando minhas gardênias, que enobrecem e embriagam meu coração, sou tão dependente dessa embriaguez, e se você comentar com alguém sobre minhas gardênias, te enterro junto com meus problemas.

Esse negócio de coração é tão íntimo, as pessoas não podem saber que eu tenho coração, e minha autarquia, vai pra onde? vamos mudar de assunto... ... ... ah deixa pra lá.. vou contar só pra você, e que ninguém saiba... Já deixei muita coisa me escapar sabe? tenho um orgulho tão bobo... eu sei, esse orgulho que me põe nesse posto, junto com minha convicção, mas por dentro ou sou tão frágil como pétala de margarida... eu converso com minha samanbaia sabia? mas ela é meio indiferente.. quando preciso de conselhos, me afogo na literatura, absorvo tanto dos autores... me inspiro muito em Honoré... e chamo de Honoré porque ele já é íntimo, pensa como eu... e quando quero descansar, escuto Bach.. mas só escuto Bach pra descansar mesmo, gosto de seus tons agudos, frágeis, que se perdem rápido no ar, tão sinuosos... mas na frente dos meus amigos eu escuto Chopin, minha carapaça é tão fria como Chopin.

Outro dia me apaixonei por uma vizinha, acompanhava sua rotina diariamente, sabia de tudo dela, tudo. A sua janela dava de frente pra minha, arrumei minha casa, coloquei um Van Gogh no campo de visão da janela, embaixo coloquei um jarro de magnólias bem rosadas, do jeito que ela se vestia, planejei tudo, mudei toda minha rotina, era tão pálida, nunca ouvi sua voz, seus cabelos dourados reluziam ao sol... ora ou outra eu ia pra janela fumar, até que ela me percebesse, fazia um charme danado... mas quando ela passava do meu lado no supermercado eu fingia que nem a conhecia, e ela olhava meio evasiva prestes a dizer "oi eu sou sua vizinha da frente", mas eu tremia nas bases e logo saía de perto _ Amanhã eu tomo coragem!... bom e ficou por isso mesmo, por uns 3 meses.. depois ela se mudou, ou sei lá..

Pois bem, aqui estou, no auge do meu presente, questionativo como sempre, mas sem muita história pra contar, a não ser balas, calibres, mecânica quântica e essas coisas que não interessam a ninguém...

O que eu vou fazer agora?? nem sei, acho que vou esperar mais uma oportunidade passar na minha frente, e calcular tempo, força elástica, deslocamento... não sei cuidar de mim, não sei tomar decisões que me envolvam diretamente, nasci pra mandar, pra por a cabeça dos outros na guilhotina, sou isento de qualquer responsabilidade, sem ela eu consigo voar.

O álcool me deixa tão introspectivo, tão direto...

Já viajei 3 cantos do mundo, com muita munição na cintura, já frequentei muitos cabaret´s, adoro uma francesinha, magrinha, fedida, tão passiva... mas eu gosto mesmo é de tomar no... (pigarro) ... gargalo... _garçom traz mais uma...

Já ta na hora d´eu meter o pé... se aquela loirinha (aponto) passar por essa mesa, pede pra ela ligar nesse número, ou me deixar um recado, sei lá... diz pra ela que eu to esperando com o telefone do lado, sou frouxo demais pra ligar pra ela... eu sei que ela tá na minha, mas to com vergonha de ir lá falar com ela... ela também ta de joguinho, porra que custa mandar um alô né? um abraço e não conte pra ninguém que estive aqui.

eu quero é avoar.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Cuando estás junto a mi

esse abraço precipitado, agressivo, só ele pra esquentar tua pele fria, despertar tua inconsciência, teus olhos semi cerrados, tua cartilagem gelada, que eu esquentei com meus lábios, sentei-me no chão, junto a ti e sussurrei "acorda" tu gemia, gemia tentando falar, tremia o corpo todo, naquele corredor sujo, úmido, deserto. Não sei bem que lugar era aquele, mas era manhã de um domingo bem nublado, de uma cidade diferente, bem fria, eu estava batendo queixo. Nem entendi nada, repousei tua cabeça nas curvas do meu ombro, e ficamos assim por horas. Acho que nunca tinha te visto, mas tua aura me lembrava alguém, alguém que minha mente criara.. te conhecia como ninguém, teus contornos, teus atalhos, teu sexo, tuas costas...
Teu desespero foi passando, meu calor era te aquecer, e eu sentia teu nariz gelado encostado no meu pescoço. Em um movimento brusco teus olhos despertaram, teu ofego aumentou novamente, mas dessa vez era diferente, teus olhos renovados, brilhantes olhovam dentro dos meus, teu rosto aos poucos foi galgando o meu, num movimento lento e involuntário, o atrito da nossa pele era uma escalada, meus cílios triscavam os teus, se emaranhavam, dançavam num movimento vertical, teus dedos tocavam meu rosto e lentamente repousaram segurando minha orelha num movimento leve. cada segundo era um milímetro a frente. Senti teus lábios frios e secos, e eu invadi, mergulhei fundo na cachoeira, na nascente da tua boca gelada, aguada, límpida, segurei tua nuca com força pra não me afogar. Rodamos, rodamos, tão rápido que diluímos, até que não sobrasse mais nada, além daquele corredor de tábuas de madeiras empoeiradas, sujas, frias com um pedacinho de luz.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Pontocom

É meu querido, é duro começar o dia assim sozinho... sozinho, com dor de cabeça, barulho de martelo, buzina, zumbido de mosquito, coceira... já viu que horas são? o relogio de cabeceira indica 12:00 am/pm piscando.. já me acustumei com esses picos de energia... às vezes o ventilador para sozinho no meio da madrugada e eu falo meio que automaticamente "light filhadaputa". Na verdade ainda são 8h20. Mas que merda, perdi o sono, já vi que vou dormir a tarde inteira, vendo esses programas de fofocas.

Na área de serviço, ainda lento, observo o varal do vizinho: terno, pijama, blusa do vasco, meia sem par, tudo ensopado da chuva de ontem... Meu desjejum é um copo d´agua, que desce gelado na minha gargata, desce cortando, gritando nas paredes do meu sistema digestivo recém acordado... já sinto ela se depositando no meu rim.. ou sei lá aonde, nunca liguei pra biologia, acho que te falei isso, meu forte mesmo é música, estudei violocelo por dez anos sabia?? nem tive tempo pra te falar, mas você deve ter percebido que tinham dois largados do lado da minha cama...

Liguei Schubert... já escutou schubert meu bem? aposto que não, muito moderno pra você.. ou muito ultrapassado, já até enxergo teu sorriso como quem diz "você devia ter nascido no século XIX, seu filhadaputa romântico", ou tua cara vazia, de quem só conhece Bizet porque tem no teu Nokia... não sei que cara tu farias, não tive tempo de estudar tua personalidade.

É duro querido, dormir mal, acordar com a cara cheia de espinhas, com essas olheiras roxas que cobrem metade do rosto, com esse bafinho de cochilo e entradas à mostra, nem àgua gelada dá jeito, fechar o espelho e pensar "é o tempo está me decompondo".

Depois ainda sentar no sofá gelado, cheio de pêlos de gato, com a barriga vazia, gosto de hortelã da pasta de dente na boca, esquentar a àgua pro café, esse intervalo que dói, esse barulho da àgua fervendo.

Enquanto isso as notas de Schubert voam e se perdem pelo basculante, notas descompassadas, em Fá menor... tá tam tam tam tam, pan pan pan pan ta tam ta tam pa nam ta nam. schubert morreu com 31 anos, tão incompreendido, fiquei pensando... essa vida vanguardista vale a pena? me distraio por alguns segundos...

Observo a sujeira de ontem a noite, copos, cinzeiros, pacote de salgadinhos, a capa do dvd desse filme idiota do Copolla que a gente tentou ver, almofadas.... isso, almofadas! você esqueceu um fio de cabelo nela... um fio bem curto é verdade, mas ainda tem o cheiro de camomila... você esqueceu também teu maço de cigarro, na pressa de ir embora... aposto que vai sentir falta, tu tava tão duro, tive que inteirar tua passagem... e ainda tem metade dos cigarros... Vou deixar aqui em cima da tapete, quem sabe você volta pra pegar, não vai precisar nem tocar a campainha... já sabe aonde eu moro né? espero que tenha decorado o nome da rua, é um nome difícil eu sei, mas espero que você tenha prestado atenção afinal, eu tive que repetir 3 vezes pro taxista... mas vê se aproveita e me fala teu nome de verdade, nem sei se esse é teu email mesmo, mas não custa nada né, nem precisa responder, quase não entro na internet, está muito a frente do meu tempo... mas se quiser deixar o telefone pra gente se encontrar qualquer dia desses, acho que seria legal, relaxa, não precisa ter medo, não vou te ligar de 10 em 10 min... só vou te ligar quando fizer frio, que nem ontem.